quarta-feira, 11 de junho de 2008

DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: Quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação e o pior – Vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: O sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o dia dos analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.
Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer.- Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Tereza que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: Era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: Que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos tem acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte por que também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Tereza, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.
Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim.No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. E outro telefonema veio: De uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. E a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano Não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.
Tereza, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, Sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.


CLARICE LISPECTOR



não sei como eu ainda não tinha postado este texto... é o texto das minhas noites chorosas e dos meus dias sem muita graça.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

dia chuvoso

Hoje acordei com um frio que não é nada peculiar para quem mora em Recife, (cidade que respira sol, mar e muito, muito calor), e me deparei com a árvore que fica em frente ao meu quarto tão bonita, mas tão bonita, com umas gotas de chuva lindas que pareciam cristais. Fiquei na janela a olhar aquela beleza tão peculiar para minha visão (a minha janela).

Passei o dia ocupada trabalhando, sem curtir muito o fato de estar em casa, poderia ser descansando não é? mas não foi.

Sai tão apressada para a universidade e nem notei que tinha deixado a sombrinha na varanda... sorte minha!!!!!! não por ter levado uma senhora chuva e ficar com a roupa ensopada, mas por um certo homenzinho de voz engraçada ao me ver molhada esperando que aquele diluvio passasse, perguntou-me:

- você vai para onde?

Ora nao costumo responder a estranhos, mas aquele homem tinha um brilho tão bonito no olhar e era tão simpático e pleno de sinceridade que eu o repondi:

- vou atravessar a ponte.

Respondi juntamente com um sorriso e ali ficamos conversando, acredita que no meio da conversa ele me perguntou se eu queria uma carona? Este enfim foi o momento que me esqueci dos problemas. Estavamos tão distraidos a ponto da amiga dele, ter de chama-lo para finalmente ir embora.

Depois que aquele homem que falava engraçado que era deficiente e me abria aquele sorriso ao falar, foi embora, me senti uma idiota aliviada... eu sabia que eu era idiota e por saber disso me encontrei numa paz que não tem tamanho... nossa!!! devem me achar louca, quem em sã consciencia iria sentir paz ao descobrir que era idiota..

os depósitos que inventei para as pessoas erradas estão finalmente esvaziando, e estou muito feliz por isso...

Com tudo isso, só me restou colocar o capuz do meu casaco na cabeça e ir embora, na chuva forte, e eu andava forte como a chuva, irredutivel, implacavel, dona de mim mesma...